Parceria de sucesso – Financiamento à pesquisa

O processo natural de seleção de um tema para projeto de pesquisa começa pelo levantamento das necessidades internas da empresa, nos setores de qualidade, desenvolvimento de produto ou de processo, manutenção, busca de novos mercados etc. A etapa seguinte é decidir se o projeto será desenvolvido internamente pela empresa ou por um parceiro externo. Essa decisão passa pela discussão com a instituição que poderá executar o projeto. É necessário compreender suas capacitações, histórico de projetos do grupo de pesquisa, disponibilidade de equipamentos e mão de obra. Essa avaliação nem sempre é simples. Após isso, é necessário definir em conjunto o escopo do trabalho a ser desenvolvido, e então iniciar a discussão de prazo e preço.

A primeira dificuldade surge em entender se a competência do grupo escolhido realmente é capaz de atender as expectativas da empresa, e um segundo obstáculo surge com o preço do serviço.

Nessa hora, muitos planos precisam ser ajustados. O preço desse tipo de serviço claramente não é baixo, por envolver tempo de dedicação de pessoas especializadas, equipamentos sofisticados, risco tecnológico e alta expectativa da empresa em relação aos resultados, o que pode ser impeditivo para a empresa. É nesta hora que, se as partes não estiverem bem cientes das formas de fomento disponíveis para financiar esse risco, o projeto pode acabar antes de começar.

Com o objetivo de aumentar a competitividade da indústria no mercado global, o governo disponibiliza instrumentos para incentivar a realização de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D&I) pelas empresas.

Os incentivos são por meio de financiamentos que podem ser de natureza reembolsável (financiamento) ou não-reembolsável (fomento), dependendo das características do projeto, tais como grau de inovação e importância estratégica da tecnologia. De forma geral, os órgãos de apoio (CNPq, FAPESP, BNDES, FINEP, Embrapii) possuem linhas de fomento e financiamento que admitem submissão de projetos por fluxo contínuo (ano todo) ou por edital (com data específica).

A Embrapii – Associação Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, que opera recursos advindos do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – MCTIC e do Ministério da Educação – MEC, disponibiliza recursos para serem aplicados em projetos de PD&I realizados em parceria entre empresas e Instituições de Pesquisa Tecnológica em fluxo contínuo e de maneira bastante desburocratizada.

Porém, apenas algumas Instituições de Pesquisa estão autorizadas a utilizar esse fomento não reembolsável. Essas Instituições são escolhidas criteriosamente pelo seu histórico comprovado de desenvolver projetos de inovação e pela alta capacidade de gerar soluções para as empresas do setor industrial em áreas específicas do conhecimento.

A checagem prévia criteriosa de competência e seriedade da Instituição de Pesquisa permite que a Embrapii delegue para essas Instituições a aprovação dos projetos que poderão receber os recursos. Em troca, a Embrapii gerencia de perto se a Instituição está realmente desenvolvendo o projeto conforme acordado com a empresa e se os recursos estão sendo gastos nos projetos conforme as suas regras.

Essa forma de operação da Embrapii soluciona vários problemas para as empresas: faz a escolha das melhores Instituições para cada área de conhecimento, paga parte relevante do custo do projeto a ser desenvolvido, não burocratiza a liberação dos recursos e não sobrecarrega a empresa com procedimento de prestação de contas.

No caso do IPT, a área de conhecimento selecionada para desenvolver projetos é “Desenvolvimento de Tecnologias de Materiais e Alto Desempenho” tendo como subtemas: ligas metálicas, materiais resistentes à corrosão e ao desgaste, nanopartículas e materiais nanoestruturados, materiais cerâmicos e compósitos. O Instituto de Física da USP de São Carlos (IFSC) é credenciado para trabalhar com Biofotônica e Instrumentação. O SENAI-CIMATEC é a unidade Embrapii para Manufatura Integrada, com projetos de automação e otimização de processos de manufatura. Além dessas, existem outros Institutos de Pesquisa que operam com diferentes áreas de conhecimento voltados para atender demandas de diversos setores industriais[1].

Não há necessidade de aguardar um lançamento de edital para submeter um projeto, uma vez que o financiamento opera em fluxo contínuo. A contratação passa por entrar em contato com uma Instituição credenciada, conversar com os pesquisadores do Instituto e desenhar o escopo técnico do projeto em conjunto.

Após o aceite do orçamento do projeto pela empresa, inicia-se a discussão dos instrumentos contratuais: termo de parceria e contrato de Propriedade Intelectual, em que qualquer resultado patenteável do projeto pode ser explorado com exclusividade pela empresa em seu mercado de atuação.

Ao compartilhar o risco, na fase pré-competitiva da inovação, a Embrapii estimula o setor industrial a inovar mais, potencializando a força competitiva das empresas nos mercados nacional e internacional. Qualquer indústria, de qualquer porte, desde que estabelecida no Brasil, pode participar.

 

Contrapartidas

– Empresa: a contrapartida da empresa é na média de 47% do valor do projeto e ainda podem contar com incentivos fiscais da Lei do Bem. Micro e pequenas empresas aportam de 7 a 14% do total. O valor aportado pela empresa pode ser financiado com recursos reembolsáveis por Instituições como FINEP ou BNDES.

– Embrapii: no máximo 1/3 do valor do projeto.

– Unidade Embrapii:  aporta na média 20% do valor dos projetos.

Pense bem: será que agora dá pra buscar a inovação que a sua empresa estava precisando?

 

Co-autora Flávia Gutierrez Motta é gerente da coordenadoria de planejamento e negócios do IPT. Possui graduação em Engenharia de Produção Agroindustrial pela Universidade Federal de São Carlos (1997), mestrado em Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo – EESC (2000) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo – EP (2006). Atualmente trabalha no IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo. Já atuou como responsável pela área de Inteligência de Mercado, foi assessora da Presidência e da Diretoria de Operações e Negócios do Instituto e atualmente é a Gerente da Coordenadoria de Planejamento e Negócios. Como pesquisadora, tem experiência na área de Engenharia de Produção.

 

Referências Bibliográficas
[1] Para conhecer todo o escopo acessem www.embrapii.org.br
Ana Paola Villalva Braga
Ana Paola Villalva Braga
é engenheira de materiais, mestre e doutoranda em engenharia metalúrgica e de materiais pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, especializada em conformação mecânica de metais e mecanismos de desgaste de ferramentas de conformação a quente. Atua como pesquisadora no Laboratório de Processos Metalúrgicos do Centro de Tecnologia em Metalurgia e Materiais do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). Em sua atuação profissional, tem prestado serviços de desenvolvimento de processos e produtos de materiais ferrosos e não-ferrosos, aplicados em atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação e prestação de serviços à indústria nas áreas de caracterização e análise de falhas e desgaste, conformação mecânica, ferramentas, tratamentos térmicos, fundição, metalurgia do pó e elaboração de ligas.

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